A África do Sul está se preparando para substituir o Peru no mercado europeu de abacate.
O fim da temporada peruana abre espaço para a África do Sul, que busca consolidar sua presença na Europa apesar dos desafios logísticos e de produção.
O calendário internacional do abacate está passando por uma transição crucial na Europa. A partir da semana 39, quando as chegadas do Peru começam a diminuir, a África do Sul assume o desafio de garantir um fornecimento contínuo. De acordo com dados da equipe da Avobook, o país africano projeta cerca de 363 remessas durante esse período, em um cenário onde cada contêiner é fundamental para atender à crescente demanda europeia.
A localização geográfica da África do Sul apresenta um desafio maior do que a do Peru: os tempos de trânsito marítimo para os portos europeus variam entre 15 e 25 dias, de acordo com o Estudo da Cadeia de Valor do Abacate do Conselho Nacional de Marketing Agropecuário (NAMC, 2023).
Essa distância exige uma gestão rigorosa da cadeia de frio e da qualidade pós-colheita. Além disso, portos sul-africanos, como Durban e Cidade do Cabo, sofrem com limitações de infraestrutura que causaram atrasos em temporadas anteriores. No entanto, a temporada de 2025 apresentou avanços.
Derek Donkin, diretor executivo da Associação Sul-Africana de Produtores de Abacate (SAAGA), afirmou que “os portos sul-africanos tiveram um bom desempenho durante a temporada de abacate de 2025, com pouquíssimos atrasos e embarques regulares para a Europa”.
O país inicia esta safra com volumes reduzidos. “94% da safra sul-africana já foi enviada, portanto, menos de 5.000 toneladas chegarão ao mercado durante outubro e início de novembro”, afirmou Donkin. Mesmo assim, o controle de qualidade tornou-se uma prioridade. “O teor de matéria seca da fruta é monitorado de perto e as temperaturas de transporte são ajustadas de acordo. Temperaturas mais baixas são utilizadas para frutas com maior teor de matéria seca”, explicou o executivo.
Estudos da Associação Sul-Africana de Produtores de Abacate confirmam que o pré-resfriamento rápido após a colheita e o monitoramento dos índices de maturação são cruciais para a capacidade da fruta de suportar longas viagens. Além disso, o manuseio cuidadoso durante o acondicionamento e o transporte é essencial para prevenir doenças como a podridão do pedúnculo.
Tecnologia, expansão e perspectivas de mercado
A África do Sul adotou tecnologias avançadas de conservação. "Contêineres refrigerados com atmosfera controlada são o método de transporte padrão, o que ajuda a manter a qualidade da fruta", afirmou Donkin.
No entanto, ele enfatizou que o segredo está na origem: “A qualidade da fruta é determinada no pomar e mantida por meio de condições adequadas de manuseio, embalagem e transporte. Os produtores dedicam atenção especial às práticas de irrigação, nutrição das árvores e controle de doenças fúngicas. Essas práticas são fundamentais para a produção de abacates de alta qualidade.”
A base produtiva do país sustenta essa visão. Atualmente, são 21.240 hectares plantados com abacates, com um crescimento anual de 800 hectares, o que garante um volume maior a médio prazo. Apesar disso, 2025 tem sido um ano desafiador. "Os volumes de exportação serão menores do que o estimado inicialmente devido a uma série de fatores, incluindo granizo, geada e danos causados pelo vento, além dos preços baixos prolongados no mercado europeu", reconheceu Donkin.
A Europa e o Reino Unido são os principais destinos, absorvendo mais de 90% das exportações sul-africanas, segundo a NAMC. Durante esta temporada, a participação de mercado será limitada durante o período de transição, mas a perspectiva é mais otimista. “Como mencionado, os volumes sul-africanos serão baixos durante este período de transição. No entanto, devido aos extensos novos plantios realizados nos últimos anos em regiões cuja produção coincide com este período, espera-se crescimento nos próximos anos”, previu Donkin.
A posição da África do Sul é ainda mais reforçada pela sobreposição sazonal. De acordo com o Centro para a Promoção de Importações de Países em Desenvolvimento (CBI, Holanda), o país pode aproveitar a janela de oferta quando a colheita do Peru termina, desde que consiga garantir qualidade consistente e preços competitivos em comparação com outros produtores emergentes, como Marrocos e Quênia. Em relação aos tamanhos, Donkin especificou que "há uma variedade de tamanhos, mas com menos frutos pequenos, como o tamanho 22", o que atende melhor à demanda europeia por frutos médios e grandes.
A África do Sul está, portanto, se preparando para consolidar sua posição no mercado europeu de abacate. Embora a conquista da liderança deste ano, que antes pertencia ao Peru, seja marcada por volumes modestos, a combinação de expansão da área cultivada, adoção de tecnologias e melhorias na logística portuária reforça a projeção de crescimento sustentado na próxima década.