A rota das frutas quenianas: Inovação e desafios no transporte para a Europa.
O Quênia, um dos principais exportadores de frutas frescas, enfrenta um desafio logístico significativo: garantir que seus produtos cheguem aos mercados europeus em ótimas condições. A fragilidade das frutas, aliada às complexidades do transporte aéreo, apresenta obstáculos que exigem soluções inovadoras. Este relatório examina como o Quênia está lidando com esses desafios, desde a implementação de novas tecnologias até a otimização de suas cadeias de suprimentos.
O tempo é um fator crítico no transporte de produtos perecíveis. Qualquer atraso pode resultar em perdas significativas. Em resposta, o Quênia implementou diversas estratégias para agilizar o processo de transporte. Essas medidas são suficientes para superar as dificuldades inerentes ao transporte de frutas por longas distâncias?
Paul Kyalo, CEO da Konza Tropicals Limited, compartilhou sua visão sobre esses desafios e as estratégias implementadas para superá-los.
Desafios no transporte e na preservação da qualidade
Um dos principais problemas enfrentados pelos produtores é o trânsito prolongado. "Desde dezembro de 2023, o embargo do Mar Vermelho obriga os navios a contornar o Cabo da Boa Esperança, aumentando significativamente o tempo de transporte", explica Paul Kyalo, diretor-geral da Konza Tropicals Limited. Esse atraso afeta o frescor da fruta na chegada.Outro desafio crucial é a quebra da cadeia de frio. "Os abacates precisam de uma temperatura constante em torno de 5°C para uma conservação ideal. Qualquer oscilação pode causar danos pelo frio ou amadurecimento acelerado", explica Kyalo.
Para garantir a qualidade durante o transporte, os produtores estão adotando práticas rigorosas de colheita e armazenamento. "Colhemos com um teor mínimo de matéria seca de 23% e um máximo de 26%, garantimos o pré-resfriamento adequado a 5°C e utilizamos absorvedores de etileno para inibir o amadurecimento durante o transporte", observa Kyalo.

Políticas governamentais
Recentemente, em dezembro de 2023, o Quênia e a União Europeia assinaram um Acordo de Parceria Econômica que liberaliza o comércio bilateral, permitindo que todas as exportações quenianas, incluindo frutas e verduras, acessem o mercado europeu sem tarifas ou cotas. Em contrapartida, o Quênia abrirá gradualmente seu mercado às importações da UE, levando em consideração suas necessidades de desenvolvimento e excluindo produtos sensíveis da liberalização.
Vale ressaltar que o Quênia tradicionalmente depende do transporte aéreo para exportar seus produtos frescos devido à sua rapidez. No entanto, os altos custos associados ao transporte aéreo levaram o país a promover o transporte marítimo como uma alternativa mais econômica. Essa transição visa reduzir custos e aumentar a competitividade das exportações quenianas no mercado europeu.
Assim, para garantir a qualidade de seus produtos e cumprir as normas internacionais, o Quênia implementou medidas rigorosas na colheita e exportação de frutas. Por exemplo, a Autoridade de Agricultura e Alimentos do Quênia (AFA) estabeleceu datas específicas para a colheita e exportação de variedades de abacate, assegurando que apenas frutas maduras e de alta qualidade sejam exportadas. Essas medidas visam evitar a colheita de frutas verdes e manter a reputação dos produtos quenianos no mercado internacional.
Fatores que impulsionam o crescimento do setor
O aumento na produção de abacate na África Oriental deve-se a diversos fatores. "O aumento da renda com a venda de abacate, em comparação com as culturas de exportação tradicionais, como chá, nozes e café, incentivou mais agricultores a migrarem para o cultivo de abacate", afirma Kyalo. Além disso, as condições climáticas favoráveis e a disponibilidade de terras no Vale do Rift, no Quênia, contribuíram para a expansão do cultivo de abacate.Para garantir a sustentabilidade a longo prazo, os produtores estabeleceram parcerias com exportadores e investiram em processos de agregação de valor. "Estamos impulsionando a produção de óleo de abacate para aproveitar as frutas que não atendem aos padrões de exportação", acrescentou o executivo.
Empresas exportadoras, organizações de desenvolvimento e agências governamentais estão trabalhando juntas para fortalecer o setor. "Oferecemos suporte agronômico aos produtores e implementamos certificações de segurança alimentar e responsabilidade social", enfatiza Kyalo.
Na África Oriental, os pequenos e médios produtores são responsáveis por 90% da produção. "Desenvolvemos colaborações estruturadas com esses agricultores, fornecendo mudas adequadas, assistência técnica e agronômica e gerenciando as práticas de colheita e pós-colheita", afirma Kyalo.
Em relação aos principais mercados, a Europa se destaca como o principal mercado para abacates do Quênia e da África Oriental, seguida pelo Oriente Médio, Extremo Oriente e Ásia Central. "Participamos ativamente de feiras, conferências e missões comerciais para desenvolver parcerias com compradores e importadores", comenta Kyalo.
No entanto, os exportadores enfrentam desafios para acessar novos mercados. "Alguns destinos são muito seletivos quanto aos calibres e tamanhos exigidos, o que dificulta garantir um fornecimento estável ao longo da temporada", explica o executivo. Além disso, os longos tempos de trânsito continuam sendo um desafio significativo. "Nos concentramos nas certificações de conformidade antes do início da temporada e colhemos nos níveis de maturação adequados para minimizar os riscos", acrescenta.
Principais fatos sobre a indústria do abacate no Quênia
A área cultivada com abacate no Quênia ultrapassa 80.000 hectares. As principais áreas de produção estão localizadas no centro do Quênia, no Vale do Rift (incluindo o Rift Norte, o Rift Sul e Kajiado) e nas terras baixas do leste. Atualmente, mais de 60 empresas exportadoras atuam no comércio de abacate.Em relação à distribuição das remessas, mais de 70% das exportações são destinadas à Europa, 10% ao Oriente Médio e outros 10% à Ásia.
Assim, os atrasos nas rotas de transporte marítimo criaram incertezas quanto à qualidade da fruta. "Sim, houve preocupações com a qualidade da safra de 2024 devido ao atraso na chegada dos navios", admite Kyalo.
Para mitigar esses problemas, os exportadores têm diversificado seus mercados. "Estamos nos concentrando em mercados no Oriente Médio e na Ásia, que não são afetados por interrupções no transporte", conclui o executivo.
O crescimento do setor de abacate no Quênia e na África Oriental é inegável, mas sua sustentabilidade dependerá da capacidade dos produtores de superar os desafios logísticos e climáticos, manter altos padrões de qualidade e diversificar seus mercados de exportação.

