China 2025: Como interpretar o novo mapa do abacate no gigante asiático?
Após um 2024 marcado por incertezas econômicas e consumo contido, o mercado chinês de abacate começou 2025 com sinais mistos. O Ano Novo Chinês representou um ponto de inflexão nos preços e volumes, mas a questão permanece: estamos diante de uma recuperação sustentada ou apenas de picos temporários?
Segundo André Vargas, gerente global de compras da South American Express Co. e diretor comercial da Fruwer Produce LLC, o mercado apresentou sinais de recuperação após os feriados, especialmente na 6ª semana. Nesse período, as caixas de 4 kg (tamanhos 20 e 22) estavam sendo negociadas entre RMB 125,00 e 135,00, enquanto as caixas de 10 kg (tamanhos 26 e 28) chegaram a RMB 280,00.
O Peru dominou o cenário, beneficiando-se de uma menor oferta chilena e de uma boa receptividade após o Ano Novo. "As frutas peruanas tomaram conta do mercado em fevereiro, principalmente graças a um período sem pressão do Chile e a uma boa aceitação após as festas de fim de ano", explicou Vargas.
O aumento de preço consolidou-se na 7ª semana, atingindo um pico de 150,00 RMB por caixa de 4 kg, coincidindo com o aumento das remessas peruanas. A chegada do navio rápido XIN DALIAN , parte do serviço WSA5 da Cosco, prometia reduzir o tempo de logística para apenas 24 dias, uma vantagem operacional que, no entanto, também acarretava o risco de saturação.
O equilíbrio foi rompido: mais volume, preço mais baixo.
O boom durou pouco. Na oitava semana, os preços começaram a se ajustar: as caixas de 4 kg caíram para 135,00–140,00 RMB, embora as caixas de 10 kg tenham subido ligeiramente devido a uma escassez temporária. Mas foi na nona semana que o mercado sofreu uma forte mudança: os preços caíram para 110,00 RMB para as caixas pequenas e 260,00 RMB para as grandes, refletindo um aumento significativo na oferta.
Só do Peru, foram enviados 28 contêineres na sexta semana, 41 na sétima e 51 na oitava. Esse crescimento, aliado a uma logística mais eficiente, prenunciou um excedente de frutas no mercado. “Se a oferta continuar aumentando sem um aumento correspondente na demanda, os preços cairão drasticamente. Já estamos começando a ver isso”, alertou Vargas.

A este cenário soma-se o fator custo: os preços pagos aos produtores no Peru permanecem elevados — entre 6,60 e 7,20 soles/kg para tamanhos de 12 a 24 — o que significa que, para atingir a rentabilidade, o preço de destino deve permanecer, no mínimo, entre 95,00 e 100,00 RMB por caixa de 4 kg. "Com os preços atuais na China, apenas quem exporta frutas premium com marcas reconhecidas consegue atingir o ponto de equilíbrio", explicou.
Março: um mês de extremos
Março foi, sem dúvida, um dos meses mais voláteis. Muitos investidores aproveitaram os preços historicamente altos, mas a queda acentuada no final do mês serviu como um lembrete de quão sensível é esse mercado.
O mês começou com uma estabilidade animadora. Durante as semanas 9 e 10, as caixas de 4 kg foram vendidas entre 110,00 e 115,00 RMB (15,10 a 15,78 USD), e as caixas de 10 kg entre 260,00 e 270,00 RMB (35,83 a 37,20 USD). Embora tenha havido uma ligeira queda na semana 10, aqueles com frutas de boa qualidade e chegadas no momento certo obtiveram retornos favoráveis. "A chave para março foi ter frutas nas semanas certas", disse um operador logístico em Guangzhou.
A maior surpresa ocorreu na semana 11: as caixas de 4 kg subiram para RMB 125,00–145,00 (USD 17,27–20,03), e as caixas de 10 kg chegaram a RMB 320,00–330,00 (USD 44,09–45,47). A semana 12 registrou os preços mais altos do ano: até RMB 170,00 para caixas pequenas (USD 23,45) e RMB 400,00 para as grandes (USD 55,12).
“Não víamos preços assim desde meados de 2023”, comentou um importador em Xangai. “Os consumidores reagiram bem à qualidade das frutas, mas sabíamos que o mercado se ajustaria em breve.”
Essa correção não demorou muito. Na 13ª semana, a chegada do navio XIN DALIAN com 60 contêineres teve um impacto imediato: em poucos dias, os preços caíram até 48%, atingindo RMB 90,00–110,00 (USD 12,40–15,16) para caixas de 4 kg e RMB 220,00–290,00 (USD 30,31–39,96) para caixas de 10 kg.
Recaída ou recuperação verdadeira?
Tomás de la Cuadra, analista de dados da Avobook, oferece uma análise técnica: em 2025, os preços para os tamanhos 18 a 24 oscilaram entre US$ 5,7 e US$ 2,9/kg durante as primeiras 16 semanas, enquanto em 2024 variaram entre US$ 5,3 e US$ 2,3/kg. “Este ano tivemos preços mais baixos do que em 2024 durante as primeiras seis semanas, mas da 7ª à 13ª semana, 2025 apresentou valores melhores”, explicou.
O Chile teve uma presença marcante em janeiro, mas sua participação caiu após a 13ª semana, deixando o Peru como principal fornecedor. "Desde a 14ª semana, o mercado chinês depende quase exclusivamente do abacate peruano", acrescentou.
Apesar de alguns sinais de recuperação econômica na China — particularmente em setores como inteligência artificial, carros elétricos e energia limpa —, o consumo de alimentos frescos ainda não atingiu os níveis pré-pandemia.
A crescente concorrência em termos de qualidade, a sazonalidade da oferta e as exigências dos consumidores chineses criaram um mercado volátil e altamente seletivo. Embora os preços pós-Ano Novo e o ritmo das exportações peruanas apontem para uma recuperação, o equilíbrio entre oferta e demanda permanece frágil.
A grande lição para os exportadores é clara:
“Apenas aqueles que mantiverem a consistência na qualidade, na eficiência logística e na flexibilidade estratégica serão capazes de capitalizar as oportunidades no maior mercado do mundo”, conclui Vargas. Para todos os outros, permanece o risco de que essa aparente recuperação seja apenas uma miragem.