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Abacate marroquino: um desafio climático e comercial que está transformando a indústria na Europa.

Nos últimos anos, Marrocos vivenciou um crescimento surpreendente no mercado de abacate, tornando-se um dos principais produtores e exportadores dessa fruta tão apreciada no Mediterrâneo.

Com uma produção em constante crescimento e uma demanda internacional cada vez maior, o país conseguiu se posicionar como uma das grandes promessas na exportação de abacates para a Europa.

Segundo a Associação Marroquina de Exportadores de Abacate (MAVA), na safra 2023-2024, Marrocos atingiu uma produção de mais de 70.000 toneladas, das quais 60.000 toneladas foram destinadas à exportação, representando um aumento de 50% em comparação com a safra anterior.

Para a safra de 2024-2025, as projeções são ainda mais ambiciosas. Estima-se uma colheita recorde de 90.000 toneladas, com a expectativa de exportar entre 80.000 e 90.000 toneladas, reservando aproximadamente 10% para o consumo interno. Entre outubro e dezembro de 2024, Marrocos já havia exportado 42.000 toneladas, o que reflete um crescimento sustentado no setor.

Abdellah El Yamlahi, presidente da MAVA, explicou em um comunicado à imprensa que, em relação à preferência do mercado europeu, a maior parte dos volumes exportados de Marrocos corresponde à variedade Hass e concentra-se principalmente nos tamanhos 12 a 20, o que indica uma clara preferência dos consumidores europeus por abacates maiores.

"O mercado europeu busca qualidade, e os tamanhos grandes são os mais procurados. Isso levou os produtores marroquinos a se concentrarem nessa variedade e tamanho específicos, garantindo que seus produtos atendam aos padrões internacionais", explica El Yamlahi.

Em relação aos preços do abacate, El Yamlahi destaca que a safra de 2024 começou com preços mais baixos em comparação com o início da safra anterior. Essa tendência continuou, mesmo sem concorrência significativa de outros países produtores.

Segundo El Yamlahi, a principal causa dessa queda de preços é a produção abundante em Marrocos nesta temporada, o que levou a um excesso de oferta. "A temporada começou com preços mais baixos do que no início da anterior, e eles continuaram a cair mesmo sem a concorrência de outras origens. O motivo é a produção abundante em Marrocos nesta temporada e a concorrência entre os próprios exportadores marroquinos", acrescentou El Yamlahi.

Esse aumento na produção e exportação de abacate se deve a diversos fatores. Condições climáticas favoráveis e a disponibilidade de recursos hídricos permitiram o estabelecimento de plantações em regiões como Tiflet, Moulay Bousselham e Larache.

Além disso, a diversificação dos mercados de destino, que agora incluem países como França, Itália, Holanda e Rússia, ampliou as oportunidades de negócios para os produtores marroquinos.

No entanto, o setor enfrenta desafios significativos. A queda no preço de referência do abacate na Europa indica uma diminuição na demanda do consumidor, o que pode afetar a rentabilidade dos produtores. Para contrariar essa situação, estão sendo implementadas estratégias focadas na qualidade do produto e na otimização dos processos de exportação, com o objetivo de manter a competitividade no mercado internacional.

Contexto atual de Marrocos

Marrocos atravessa uma fase de transformação econômica e social. Segundo informações do Ministério das Relações Exteriores, União Europeia e Cooperação, no segundo trimestre de 2024, a economia nacional apresentou uma aceleração significativa do crescimento, com uma taxa de crescimento do PIB de 2,9%, impulsionada principalmente por uma demanda interna mais forte e pelo consumo positivo. Setores como mineração e construção civil registraram um crescimento notável, contribuindo para o dinamismo econômico do país.

Além disso, Marrocos apresentou um alto nível de crescimento nas últimas décadas (com média de 4,3% entre 2000 e 2017) graças aos elevados níveis de investimento (cerca de 30 a 35% do PIB) e à formação bruta de capital fixo, à estabilidade macroeconômica e a instituições financeiras e governança econômica sólidas.

No entanto, o país enfrenta desafios demográficos, com uma taxa de natalidade em desaceleração e um crescimento populacional que caiu para os atuais 0,85%. Além disso, problemas como o elevado desemprego juvenil e a baixa participação feminina no mercado de trabalho persistem, exigindo atenção para garantir um desenvolvimento econômico inclusivo e sustentável.

Aproveitar ao máximo os recursos disponíveis será fundamental para o crescimento sustentável.

Yassin Chaib, gerente da Mavoca, uma das principais exportadoras de abacate do Marrocos, destacou vários fatores-chave para a compreensão do crescimento sustentado do mercado no país. Segundo Chaib, o sucesso da indústria marroquina de abacate se baseia nas condições climáticas excepcionais de regiões como a área costeira que se estende de Tânger a Yarida, onde as temperaturas amenas e a disponibilidade de água criaram um ambiente ideal para o cultivo do abacate.

“Na região de Larache, por exemplo, desfrutamos de altos índices pluviométricos anuais e temperaturas relativamente amenas, criando condições perfeitas para o cultivo de abacate”, explica Chaib. No entanto, ele também reconhece os desafios decorrentes da necessidade de gerir os recursos hídricos de forma eficiente, especialmente considerando que a água é um recurso limitado em algumas áreas.

Uma das lições mais importantes que impulsionaram o crescimento da produção de abacate em Marrocos é a análise das experiências em outras regiões produtoras. Chaib destaca que, embora Marrocos tenha um clima favorável, a escassez de água é um desafio crucial que pode ameaçar a sustentabilidade do setor se os recursos não forem gerenciados adequadamente.

"Estamos aprendendo com as experiências da costa andaluza, que enfrenta problemas de escassez de água após mais de 30 anos de produção. Isso nos levou a implementar práticas sustentáveis desde o início, como explorar sistemas de irrigação mais eficientes, como a dessalinização, dada a nossa proximidade com o mar", acrescenta.

Além disso, Chaib menciona que a chave para o sucesso reside não apenas na tecnologia e no uso eficiente da água, mas também no treinamento contínuo dos agricultores para que aproveitem ao máximo os recursos disponíveis. "É essencial que os agricultores aprendam a usar a água de forma eficiente, instalem tensiômetros para medir a umidade do solo e entendam quando a irrigação é realmente necessária. Muitas vezes, devido à falta de conhecimento, ocorre irrigação excessiva, o que desperdiça água e pode afetar negativamente a qualidade da colheita."

Em termos de projeções de crescimento, Chaib está otimista. Apesar da desaceleração no plantio de novas safras devido à escassez de água em algumas áreas, o gerente da Mavoca prevê um aumento significativo na produção de abacate nos próximos anos. "Com as plantações existentes, estimamos que a produção aumentará de 50% a 80% nos próximos anos, atingindo entre 200 e 300 toneladas anualmente. Embora os fatores climáticos sejam cruciais, estamos confiantes de que, com uma gestão sólida e a implementação de tecnologias apropriadas, Marrocos continuará sendo um ator-chave no mercado internacional de abacate."

O setor de abacate em Marrocos continua a demonstrar um crescimento notável e uma perspectiva otimista para o futuro. Impulsionado por inovações tecnológicas, um foco na sustentabilidade e lições aprendidas com outras regiões produtoras, o país está bem posicionado para consolidar sua posição como um líder emergente na produção de abacate. A visão de líderes do setor como Yassin Chaib reforça o compromisso de Marrocos com o desenvolvimento de um mercado agrícola moderno, eficiente e responsável em um contexto global cada vez mais competitivo.

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